O bem-estar e a saúde nas empresas também se medem pelo capital humano

A saúde mental dos colaboradores e a retenção de talento estiveram em destaque no segundo encontro do projeto Healthy Spaces, Happy People. Rogério Gaspar, diretor do Departamento de Regulação e Pré-qualificação da OMS, em Genebra, foi o orador convidado e destacou o capital humano como um dos principais ativos das organizações.

O encontro decorreu no âmbito de um projeto que resulta de uma parceria entre o Link To Leaders e a especialista em Espaços Saudáveis Vanda Boavida, com o apoio do Grupo Altis. Num formato intimista de pequeno-almoço, a iniciativa cruza evidência científica, boas práticas e experiências reais, colocando a qualidade dos ambientes físicos de trabalho no centro das decisões estratégicas das organizações, com destaque no bem-estar, na saúde mental e na capacidade de atrair e reter talento.

Com um percurso académico ligado à Faculdade de Farmácia da Universidade de Lisboa e uma carreira internacional na área da política do medicamento e do acesso global a terapêuticas, Rogério Gaspar trouxe ao debate uma reflexão sobre a importância do capital humano para a sustentabilidade das organizações.

Na sua opinião, o bem-estar dos colaboradores e a preservação do conhecimento são fatores críticos para a resiliência das empresas, mas continuam a ser frequentemente subvalorizados. Considerou que, no período pós-pandémico, muitas organizações perderam profissionais experientes e altamente especializados e continuam a não compreender verdadeiramente o peso dessa perda.

“O verdadeiro problema não é substituir pessoas, mas recuperar o conhecimento acumulado que elas transportavam”, afirmou. O especialista frisou que “a capacidade de substituição é menor hoje, porque é possível substituir colaboradores, mas não é possível substituir capital humano hiperespecializado, que demora muitas vezes mais de uma década a atingir um determinado nível de desempenho”.

Para ilustrar o seu argumento, Rogério Gaspar recorreu à sua própria experiência. Lembrou que, quando Portugal teve de adaptar rapidamente o seu sistema regulador às exigências europeias, foram recrutados jovens especialistas que acabaram por colocar o país entre os melhores avaliadores do sistema europeu do medicamento. Uma história de sucesso construída sobre a valorização do conhecimento, da especialização e das pessoas que constituem o verdadeiro capital humano das organizações.

Saúde para todos: o quadro global que enquadra o debate

A intervenção de Rogério Gaspar ancorou-se também no quadro dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU, em particular no ODS 3, dedicado à Saúde e Bem-Estar. Com metas ambiciosas para 2030, que incluem o combate a epidemias, a redução da mortalidade evitável e o reforço dos sistemas de saúde, e uma pandemia que expôs fragilidades sistémicas a nível global, o quadro pretende demonstrar que investir na saúde não é uma despesa.

É, acima de tudo, uma condição de resiliência, tanto para os sistemas públicos como para as organizações privadas. A resposta acelerada à COVID-19, com o desenvolvimento de vacinas em tempo recorde após a identificação do vírus, é disso um exemplo concreto, e demonstrou até onde pode chegar a ciência quando existe coordenação, conhecimento acumulado e vontade institucional.

O que os espaços ainda não estão a fazer

Vanda Boavida, formadora e consultora em Espaços Saudáveis, Pessoas Felizes e coorganizadora do projeto, centrou a sua intervenção na relação entre os ambientes de trabalho e as necessidades de colaboradores neurodivergentes. Segundo a especialista, existe hoje um número crescente de profissionais com autismo e TDAH diagnosticados nas empresas, mas o desenho dos espaços continua, muitas vezes, sem refletir essa realidade. “Isto pode alterar-se com pequenos apontamentos do ponto de vista de design que ninguém está a fazer”, afirmou.

Na sua perspetiva, a capacidade de autorregulação é um fator determinante para o bem-estar e o desempenho destas pessoas, podendo ser influenciada pelas características do espaço físico onde trabalham. “Se estiverem a fazer duas coisas em simultâneo, conseguem ser mais produtivos. As empresas não estão a utilizar estas estratégias”, disse.

A especialista abordou ainda tecnologias com evidência científica crescente que raramente chegam às mesas de decisão. A fotobiomodulação (terapia de luz vermelha e infravermelha próxima, com investigação que remonta à NASA) tem expandido as suas aplicações para áreas como a recuperação, o equilíbrio hormonal, a qualidade do sono, a saúde mental e a redução da inflamação. “E se eu vos disser que implementar isso nas empresas custa menos do que fazer team building?”, questionou.

A mensagem central da sua intervenção incidiu na necessidade de aproximar o conhecimento científico da tomada de decisão nas organizações. “Não tem a ver com o investimento. Tem a ver com o conhecimento. E não está a ser usado. Esta informação não chega aos diretores”, afirmou Vanda Boavida.

O diagnóstico partilhado pelos dois oradores convergiu num ponto essencial: o principal obstáculo à criação de espaços de trabalho mais saudáveis em Portugal não é financeiro, mas um problema de literacia e de acesso à informação certa. Muitas empresas investem em iniciativas de bem-estar sem medir o impacto real, sem uma abordagem baseada em evidência e sem integrar o conhecimento interdisciplinar que tornaria essas intervenções verdadeiramente eficazes.

O próximo encontro do projeto Healthy Spaces, Happy People está previsto para outubro, com data a anunciar.